Por David Guimarães

Data 28 Novembro 2017

 “Brincar é o Ofício da Criança”.

O meu avô Virgílio Moreira e a sua Lúdica Lucidez

            Médico pediatra com visão à frente do tempo, articulista com opiniões livres e corajosas, homem curioso e interventivo. Neste mundo plural, imenso, único e implicante foi agente tocante e actuante. Sabedor e erudito, apaixonado e empático. Fez tanto e tão bem.     

Escrevo este texto para comemorar a sua vida e obra, mais concretamente para prestar homenagem aos 30 anos de vida da sua Associação de Ludotecas do Porto (ALP). Comunidade de sinergias que nasceu para consubstanciar a ideia da infância como tendo importância suprema, fase única da vida que origina a explosão do “poder de autenticidade”. Só a criança manifesta o potencial libertador necessário para que o seu ser se cumpra, por mais que o futuro possa colocar grilhetas ao adulto por cumprir.

A educação estandardizada, com linhas orientadoras preconcebidas que definem a "criança ideal"  (que não é mais do que um "cidadão trabalhador" em ponto pequeno), impossibilita a percepção da natureza da infância. É necessário passar do "educador modelar" (que enforma e molda), ao "educador regador" (alguém que impulsiona a criança a crescer sem amarras, como uma planta que brota da terra). 

Para que essa natureza se manifeste é indespensável o conceito da "criança brincadora", vista como alguém que se concentra através da brincadeira, que aprende e pensa a brincar. Assim se consegue uma "concentração lúdica", que difere da distração pelo excesso de atividades a que os mais novos muitas vezes estão sujeitos no meio escolar. Estes locais, infelizmente hoje em dia, servem em bastantes casos como "recreio para os técnicos", onde põem em prática a sua “criatividade”. Tal postura autoreferencial não serve os superiores interesses da criança.

A forma como olhamos para as nossas crianças serve de barómetro para os princípios que desejamos ver implantados no mundo. “Pensando em conjunto com o meu avô”, devemos ver a criança como um ser livre, com potencial tremendo para se estimular de forma autónoma. Partindo desta reflecção, qualquer intervenção pedagógica deverá estar orientada sempre no sentido de regar essa “semente” para a liberdade, contrariando a visão dominadora actual, que pretende moldar, cortando pela raiz a possibilidade de autodescoberta.   

Uma forma de aferir a grandeza de alguém não é pela sua obra, mas sim pela forma como a obra se perpetua no outro, não como “réplica”, mas como “passagem de testemunho”. Passados trinta anos, a Associação de Ludotecas do Porto é, felizmente, essa obra inacabada, partilhada, em caminho. Lúcida e lúdica. Como uma criança. Um pequenote que brinca. Um devir.   

               

            David Guimarães